RAL Online Jan. 20, 2018 - 443 Views

Percepções dos Dirigentes Empresariais\

Resumo Em 2002, foi realizado uma pesquisa sobre responsabilidade social das empresas portuguesas, no qual participaram 123 dirigentes das mesmas. Neste artigo, serão feitas menções a duas pequenas parcelas dos resultados desse estudo: a que concerne à adopção de códigos de ética, e a que diz respeito às relações das empresas com as entidades públicas. Mais de 40% dos dirigentes afirmam que as suas empresas perfilham um código de conduta. Embora similar à detectada em Espanha, esta percentagem é inferior à de outros países. Verificou-se, também, que os dirigentes denotam uma substancial desconfiança relativamente às actuações das entidades públicas.

1. A responsabilidade social das empresas no contexto ibérico e europeu

Este artigo tem como objectivo fundamental dar conta das percepções dos dirigentes empresariais portugueses acerca das relações entre as suas empresas e as entidades públicas. Representa um pequeno extracto de uma pesquisa mais vasta(l) fitando medir as opiniões dos dirigentes acerca da responsabilidade social das empresas (RSE). Tal investigação foi realizada como réplica a um estudo efectuado em Espanha pela Forética (Foro para la Evaluation de la Gestión Etica), por seu turno norteada pelos desafios à reflexão lançados pelo Livro Verde da Comissão Europeia intitulado “Promover um quadro europeu para a responsabilidade social das empresas”, datado de 18 de Julho de 2001.

A “doutrina” que anima esse Livro Verde e a Comunicação da Comissão Europeia sobre a RSE(3) dele resultante faz a apologia enfática da necessidade de as empresas actuarem sob a batuta dos interesses de uma vasta gama de stakeholders (“partes interessadas”) - e não apenas sob a luz dos interesses dos accionistas ou proprietários (shareholders ou stockholders). Aduz explicitamente que a assunção de RSE nesse quadro de actuação é favorável para a sociedade e para a economia no seu todo - e promove a própria competitividade das empresas.  

Um dos stakeholders mais relevantes neste quadro interpretativo é constituído pelas entidades públicas. E verosímil que o modo como as empresas actuam na relação com elas dependa, pelo menos parcialmente, do modo como interpretam as respectivas actuações éticas. O grau de (des)confiança que por elas nutrem pode exercer influência sobre a disponibilidade para assumirem responsabilidades sociais e, mais especificamente, para cumprirem normativos legais/regulamentares e fazerem jus às obrigações que o Estado lhes dirige por meio dessas interpostas entidades.

Os dados empíricos expostos neste artigo são os facultados pelos dirigentes de 123 empresas, com dimensões diferenciadas, oriundas de sectores de actividade muito diversos, e actuando em várias zonas geográficas do país. Representam as respostas a um questionário enviado aos dirigentes de topo de 1500 empresas portuguesas(4). De entre as organizações participantes no estudo, 18.3% empregam até 50 trabalhadores, 48.7% integram entre 51 e 250 trabalhadores, e 18.3% têm ao seu serviço mais de 250 colaboradores. Entre os dirigentes que participaram no estudo, 18.3% são do sexo feminino, percentagem que diverge substancialmente da amostra espanhola (33%). A repartição por escalões etários está assim configurada: 25.5% dos dirigentes têm 35 anos ou menos, 36.8% situam-se no escalão 36-45 anos, 25.4% cabem no intervalo 46-55 anos, e 12.3% perfazem mais de 55 anos.

2. Códigos de conduta

O código de conduta de uma empresa pode ser definido como um documento escrito, formal, que enuncia diversos padrões morais visando orientar/inspirar os comportamentos dos seus colaboradores®, tanto no seio da própria empresa como na relação com outros stakeholders - incluindo as entidades públicas. O tema não é central neste artigo, mas importa mencioná-lo, por duas razões fundamentais. Primeiro: a adopção destes documentos assinala o grau em que as empresas valorizam explicitamente a relevância das matérias da ética e da responsabilidade social das empresas. Segundo: tal como seguidamente se verificará, o modo de relacionamento das empresas com as entidades públicas parece variar consoante elas perfilham ou não tal código.

Cerca de 42% dos dirigentes inquiridos afirmam que as suas empresas perfilham um código de conduta, não se tendo detectado diferenças substanciais entre as empresas de diferentes dimensões'51. Esta percentagem, embora inferior à detectada noutros países (quadro 1), é muito próxima da verificada em Espanha (41%). O dado afigura-se algo surpreendente -

pelo menos se atendermos à reduzida expressão mediática da sua existência, e até à pequena ênfase que, em geral, as empresas devotam à sua divulgação externa. Todavia, não é possível afiançar se tal percentagem é representativa da situação portuguesa. Na verdade, é verosímil a hipótese de os dirigentes de empresas com códigos de conduta serem mais propensos a participar em estudos como este a que estamos a reportar-nos.

Quadro 1 
Percentagem de grandes empresas com códigos de ética em vários países  

País Percentagem Fonte de Recolha dos Dados
EUA 93% Center for Business Ethics (1992)
Canada 86% KPMG (2000)
Reino Unido 57% Le Jeune e Webley (1998)
Alemanha 51% Langlois e Schlegelmilch (1990)
França 30% Langlois e Schlegelmilch (1990)

A menção antes feita à pequena ênfase externa que, em geral, as empresas devotam à sua divulgação externa parece receber alguma confirmação neste estudo. Na verdade, apenas 53.8% dos inquiridos de empresas sem código de conduta consideram relevante a sua divulgação no exterior. A tendência não deixa de merecer reflexão aprofundada, pois a RSE é, por natureza, extensiva a clientes, fornecedores, comunidade, autoridades públicas e outros stakeholders externos. E possível que esta relativa desconsideração pela divulgação externa se deva a alguma ausência de sensibilização para a matéria. O facto, só por si (e se for seguida a senda apontada nos documentos da Comissão Europeia) parece justificar que se adoptem iniciativas de divulgação, de sensibilização e de promoção da RSE, seja ao nível académico, governamental ou da União Europeia.

3. Olhares de “soslaio” sobre as entidades públicas?

No que concerne às entidades públicas, as indagações enviadas aos dirigentes empresariais consubstanciaram-se em seis questões - mas globalmente atinentes ao modo como as empresas sentem que as obrigações mútuas são cumpridas. Os resultados globais referentes às cinco primeiras questões estão expostos na figura 1, e podem ser assim sumariados (são feitos alguns cotejos com dados espanhóis publicados pelo relatório publicado pela Forética em 2002):

  • A grande maioria dos dirigentes (92%) alega que as suas organizações cumprem com todas as obrigações que as entidades públicas exigem (89% em Espanha).
  • Remonta a 67% a percentagem de inquiridos que consideram que a sua organização tem uma política transparente no que diz respeito aos convites dirigidos a funcionários dessas entidades para cerimónias, eventos, certames, etc. (57% em Espanha).
  • As percepções acerca do comportamento das entidades públicas são todavia menos favoráveis. Desde logo, 68% dos inquiridos consideram que as entidades públicas não fazem uma utilização adequada dos recursos públicos para que são destinados (subsídios, etc.). Esta percentagem é bastante superior à espanhola (44%).
  • Cifra-se em 57% a percentagem dos que consideram que as entidades públicas não agem de modo a que todas as organizações que actuam no mercado tenham as mesmas oportunidades/possibilidades de contratar com elas (53% em Espanha).
  • Quase 23% de dirigentes consideram que as entidades públicas tendem a desenvolver actividades de concorrência desleal com o sector em que a sua organização se insere (37% em Espanha).

A sexta pergunta convidava os inquiridos a atribuirem uma cotação à actuação ética das entidades públicas, numa escala de 1 (muito mal) a 10 (muito bem). Os dados reiteram a fraca “consideração” que as empresas nutrem por tal actuação ética. Na verdade, a grande maioria dos dirigentes (70%) atribui uma notação igual ou inferior a 5 (figura 2). Este dado reflecte-se na média global, que se situa em 4.8. Genericamente, as opiniões dos dirigentes portugueses são similares às dos espanhóis, embora ligeiramente mais pessimistas/desfavoráveis.

Algumas diferenças foram encontradas entre as empresas de diferentes dimensões. Mais concretamente:

    a) Nenhum dirigente das empresas de maior dimensão alega que a sua organização não cumpre todas as obrigações perante as entidades públicas, mas 9% dos responsáveis pelas empresas mais pequenas referem que tal ocorre.
    b) Entre os dirigentes de empresas com menos de 250 trabalhadores, 60% alegam que a sua organização tem uma política transparente de convites dirigidos a funcionários dessas entidades para cerimónias, eventos, certames. Mas essa percentagem ascende a 90% entre as empresas de maior dimensão.
    c) Entre os dirigentes de empresas de maior dimensão, 20% alega acreditar que as entidades públicas fazem uma utilização adequada dos recursos públicos para que são destinados. Essa percentagem remonta apenas a 11% entre as empresas de menor dimensão.
    d) A cotação atribuída à actuação ética das entidades públicas atinge 5.6 entre as organizações com mais de 250 empregados, cifrando- se em 4.6 para as restantes.

Foram também detectadas diferenças entre empresas com e sem código de conduta. Mais concretamente, entre os dirigentes de empresas que alegam tê-lo, 76% afirmam que a sua organização tem uma política transparente de convites dirigidos aos funcionários. Essa percentagem desce a 62% entre as empresas que não perfilham tal código.

A diferença merece uma menção especial. De facto, os códigos de ética não são a “varinha de condão” que permite transformar uma empresa pouca ética numa organização exemplar. Os códigos apenas alteram o perfil ético da organização quando as suas normas estão impregnadas nas políticas, nos processos, nas estruturas, nos sistemas e nos procedimentos - e, especialmente, quando os membros organizacionais actuam quotidianamente de modo eticamente desejável. Não são um garante das condutas éticas - mas apenas uma moldura que as inspira e facilita. De qualquer modo, o que esta pesquisa sugere é que as empresas com código de conduta propendem mais claramente para um relacionamento transparente com as entidades públicas.

Algumas diferenças foram igualmente encontradas entre as dirigentes e os seus congéneres masculinos, sendo elas mais pessimistas. Por exemplo, 70% dos homens afirmam que a sua organização tem uma política transparente de convites dirigidos aos funcionários, mas a percentagem cifra-se em apenas 52% entre elas. Este maior pessimismo feminino foi detectado noutras matérias alvo de estudo, assim como em outras pesquisas efectuadas pelos autores deste artigo'9’.

4. Uma leitura de síntese

Uma síntese interpretativa permite afirmar que, em geral, os dirigentes das empresas portuguesas projectam leituras menos favoráveis sobre as actuações éticas das entidades públicas em geral. O panorama não difere fortemente do detectado em Espanha, embora aí pareça ser um pouco menos desfavorável. Em contrapartida, os dirigentes alegam que cumprem as suas obrigações perante essas entidades. Poder-se-á especular sobre a possibilidade de este diferencial resultar da “vaidade ética” dos dirigentes empresariais e das suas empresas - mas o dado mereça aprofundamento.

Na verdade, o comportamento do Estado, por interpostas entidades, junto dos agentes produtivos pode verter efeitos significativos sobre o comportamento destes. Por exemplo, o Estado “mau pagador” gera efeitos perversos sobre as relações entre outros agentes económicos: os credores do Estado sentem dificuldades adicionais em cumprir as suas dívidas perante os fornecedores, e assim se produz um “efeito dominó” nefasto para todos os agentes. Efeitos igualmente perversos podem emergir quando os intervenientes no processo económico sentem que o Estado é perdulário no modo como gere os dinheiros públicos, não vela pela justiça fiscal, distribui privilégios em vez de garantir o cumprimento de “regras do jogo” claras, se demite de criar um aparelho judicial realmente justo, é despesistapara alimentar clientelas, mantém na impunidade os agentes com actuações sub-reptícias e penaliza os mais indefesos para ocultar ou expiar as suas incompetências.

Em qualquer caso, importa que cada agente se não demita das suas responsabilidades. As empresas não devem apontar o dedo acusatório ao Estado (e entidades públicas que medeiam a sua relação com os agentes) como manobra de distracção que permita ocultar os seus próprios “vícios”. A cada agente cabe fazer jus às suas próprias responsabilidades éticas. Colocar o Estado e a Administração Pública no “banco dos réus” pode ser um expediente tão nefasto para a vida económica e empresarial quanto as suas reais deficiências de actuação. Responsabilizar o Estado por todas as maleitas pode ser tão perverso quanto os reais disfuncionamentos desse mesmo Estado.

Quadro 2

Dois comentários... embaraçosos!!?? "

1. “A certificação fica extremamente dispendiosa, o que leva a maioria das empresas à não certificação (...) Não convém nada esquecer este pormenor - é que os subsídios que vêm para as empresas apenas são para os Tubarões.”
2. “Não deveria haver perdões fiscais. Todos deveriam pagar impostos. Era fundamental que os tribunais funcionassem. Deveriam ser publicadas listagens das empresas não cumpridoras com os fornecedores e outras entidades. Importaria afastar os fornecedores mal formados, sem qualquer saber.”

 

 

Arménio Rego
Departamento de Economia, Gestão e Engenharia Industrial da Universidade de Aveiro

José Manuel Moreira Cláudia Sarrico
Secção Autónoma de Ciências Sociais, Jurídicas e Políticas da Universidade de Aveiro

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